Deixem as mães em paz!

Deixem as mães em paz!

Quando estudamos sobre nutrição e hábitos alimentares, frequentemente nos deparamos com informações/achados científicos que contrariam nosso conhecimento e nos obrigam a desconstruir muito daquilo que julgamos saber sobre alimentação.

É preciso ter a mente aberta e senso crítico para ler, filtrar e transformar em atitudes reais aquilo que lemos e ouvimos falar sobre os alimentos e seus malefícios ou benefícios.

Carregamos uma história de vida onde o ato de comer foi construído pelo meio familiar e social. Cada família tem sua maneira particular de se alimentar e, corretos ou não, influenciam de forma significativa nossa maneira de comer. Nossas mães e pais tiveram que fazer suas escolhas e, acredito eu, não as fizeram por mal. Há alguns anos, não se sabia tanto como hoje se sabe a respeito do que é ter uma boa alimentação.

Quando me tornei mãe, eu não imaginava o tamanho do desafio que algumas mães enfrentam todos os dias simplesmente por optarem por oferecer uma alimentação saudável aos filhos. Isso mesmo, parece loucura, mas vejo várias mães sofrendo críticas e retaliações por terem optado por dar uma alimentação de qualidade para os filhos.

 As histórias são muitas; avós colocando leite condensado escondido na mamadeira dos netos, tia dando bolachinha recheada escondido para o sobrinho, escola infantil que não respeita as orientações da família em relação à alimentação e por aí vai. A criança vira uma “coitadinha” porque os pais optaram por não dar doces até os dois anos ou por não oferecer sal até um ano.

Virou crime hediondo seguir as recomendações do ministério da saúde.

E por que tudo isso? Por que o fato de uma mãe ter escolhas diferentes da maioria é tão incômodo e desagradável?

Tenho um palpite: é porque não toleramos a ideia de que alguém queira ser “melhor” do que nós.

Por que coloquei “melhor”, assim entre aspas? Por que é exatamente esta a questão. As pessoas muitas vezes veem esse movimento de cuidado alimentar como uma rejeição ou afronta a forma habitual de alimentação infantil. Existe somente o bom e o ruim. E reconhecer mérito na escolha alheia significa que sou ruim e ponto final.

“Eu comi Danoninho e sobrevivi”. “Meus filhos tomaram mucilon desde os 2 meses e estão vivos”. “Minha avó molhava a chupeta na cachaça e nunca ninguém morreu”. “Você comia bolacha recheada todos os dias e está aí, vivinha”! “Meu tio comia torresmo com 3 meses de idade e sempre teve uma saúde de ferro”. A lista de exemplos de sobrevivência só aumenta…

Bebíamos refrigerante, comíamos milhopan, bolachas recheadas e pipocas doces em pacotinhos. Nossos lanches eram, muitas vezes, salgadinhos em forma de bolinhas fedorentas acompanhadas de um suco/corante chamado ki-suco que manchava os copos de plástico para sempre.

Nossos pais nos odiavam? Imagino que não. Acredito que apenas quisessem nos proporcionar aquilo não puderam usufruir em sua infância. O Brasil finalmente “progredia” e as indústrias produziam todo tipo de produto/porcaria e despejavam para um público sedento de novidades e soluções rápidas e práticas para alimentar a família. Naquela época, não existiam leis que inibissem ou estudos que explicassem as consequências do consumo de tais alimentos. O resultado de todo este consumo podemos observar hoje: vivemos em um país de obesos, diabéticos e hipertensos.

Toda vez que ouço a frase comi e sobrevivi, penso: muitos não tiveram essa sorte. Estima-se que o sobrepeso tenha contribuído para 4 milhões de mortes em 2015 — o que representa 7% do total mundial de mortes naquele ano. O número é maior do que a soma das mortes causadas por acidentes de trânsito, terrorismo e Alzheimer.

O que eu gostaria que ficasse claro neste texto é que quando uma mãe decide “romper” a forma usual de alimentação infantil, oferecendo alimentos saudáveis e restringindo alimentos não saudáveis, ela compra uma briga não apenas com a mãe, tia, sogra, marido, escola, porteiro, dono da mercearia, departamento de marketing do Mc Donalds . Ela compra uma briga com sua própria história e se vê tendo que seguir um caminho pedregoso e solitário rumo ao desconhecido. O que a um olhar superficial pode parecer arrogância é na verdade muito amor e vontade de proporcionar aos filhos um futuro com mais saúde e qualidade de vida. Porque arrogância nenhuma resiste a tanto tiro, porrada e bomba.

Vamos combinar uma coisa? Que tal mais paciência e acolhimento com estas mamães? Vamos lá, não é tão difícil….

Imagine só que louco se ao invés de críticas chovessem elogios ou simplesmente silêncio e respeito pelas escolhas alheias??

Fico arrepiada só de pensar…

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